De que é feito um geek? Ao pensar sobre o que escrever para o blog, me deparei com essa pergunta.
Percebi que seria melhor, talvez, me perguntar o que distingue um geek de um fã, ou de uma pessoa “comum”. Deixando de lado o distanciamento saudável entre o pesquisador e o seu objeto de estudo, já que eu mesmo sou um geek, cheguei a algumas conclusões. Espero que concordem ou, ao menos que o debate seja proveitoso…
A primeira coisa a fazer para se entender o que distingue um geek é pensar o que os geeks têm em comum. No cerne de todo geek estão dois aspectos complementares e indissociáveis que serão, portanto, discutidos em conjunto:
O geek é uma pessoa que tem interesse acima do normal em ao menos um assunto. Nisso nos assemelhamos muito aos fãs e colecionadores. O assunto em especial não tem muita importância, pode ser qualquer coisa, de futebol a arte moderna, passando por culinária, RPG, computadores, literatura inglesa do século XIX e até mesmo selos.
A diferença é que o geek não se contenta em apenas observar o seu objeto. Somos inevitavelmente compelidos a passar nossos pensamentos por um prisma, que os decompõe em elementos identificáveis dentro do nosso paradigma particular. Chamo aqui de paradigma o conjunto de sistemas lógicos racionais que construimos em torno dos nossos objetos de interesse.
Um exemplo: um geek de RPG frequentemente se pega pensando em coisas como “Nossa, tirei um 20 em Diplomacia falando com a minha mãe agora” ou “Puxa, essa menina (ou esse cara) tem 5 bolinhas de Carisma”. Já geeks de Física conseguem encaixar expressões como “comportamento não linear” quando discutem sobre futebol ou “tunelou” ao comentarem sobre como alguém chegou rápido a um ponto de encontro.
Sendo assim, uma pessoa que começa a usar planilhas de excel e procurar fórmulas matemáticas para entender como o Oswald de Souza faz as previsões dele para o Campeonato Brasileiro e que, mesmo sendo formada em algo totalmente desligado da matemática, resolve estudar estatística “nas horas vagas” para poder se aprofundar mais nas discussões sobre o seu time de futebol, é certamente um geek. Não porque usou ferramentas matemáticas, mas porque foi além do simples interesse pelo time e criou todo um paradigma em torno do futebol.
É, então, o diálogo entre um objeto de interesse qualquer e a propensão e necessidades intrínsecas de um proto-geek em criar sistemas racionais para interagir e se relacionar com o mundo que faz com que uma pessoa passe de “interessada” ou “fã” a geek. Seja em convenções de anime ou de ficção científica, em aulas de culinária ou física quântica, estamos todos ligados por esse núcleo comum.
Derivo disso então que a comunidade geek é muito maior do que se poderia supor a priori, especialmente porque a imagem do geek é geralmente associada aos geeks de informática e ciências exatas, fazendo genuinos geeks de áreas como ciências humanas, sociais ou até mesmo do mundo artístico, não se identifiquem como geeks.
Este post, por sinal, é um exemplo de como um geek de ciências exatas decompõe um fenômeno da área das ciências sociais em termos que é capaz de entender e analisar. É também um bom exercício de metageeking, ou seja, o estudo dos geeks por eles mesmos, coisa que será relativamente comum em um ambiente habitado por textos escritos por geeks e para geeks.